domingo, 23 de março de 2014

POBREZA POLÍTICA


Pedro Demo
Professor aposentado da Universidade de Brasília – UnB


Não ter e não ser – duas formas de pobreza. Condicionam-se como regra geral, mas não determina a outra necessariamente. Nem uma é sempre mais importante que a outra. Há quem tenha muito e não é nada, como há quem seja muito, sem nada ter. Uma é de ordem socioeconômica, quantitativa, material; outra é de ordem política, quantitativa, imaterial (Lustosa, 1985). 


A pobreza na sua versão material é a face mais visível. É a forma comumente tratada pelos cientistas e planejadores, que apenas trabalham com grandezas empíricas. É a que se encontra concretamente nas ruas. É a que espanta em primeira mão. É a que constrange pela presença agressiva.
Não há como concebê-la secundária, em troca de idealismo alienantes, como se os homens vivessem de ideias, ideologias, religião e cultura, ou em troca de maniqueísmos sectários, como se matéria fosse viril. Não ter o mínimo para a sobrevivência constitui um desacerto de total gravidade, que urge superar, seja porque é injusto, seja porque é indigno, seja porque é provocação evidente.
Pobreza material não deve ser confundida com pressupostos materiais de sobrevivência, porque não haveria suficiente diferenças, por exemplo, com a necessidade de oxigênio ou de meio ambiente físico. Pobreza não é um dado natural, mas produto de tipos históricos de organização da sociedade. Não é carestia dada, mas desigualdade produzida. Diz-se material porque seu móvel é o econômico. Desigualdade produzida economicamente manifesta-se de modo quantitativo, ou seja, na falta de renda, de emprego, de habitação, de nutrição, de saúde.

Somos, sem duvida, um pais pobre em quantidade. Mais ou menos 1/3 da população economicamente ativa é remunerada até um salário mínimo, salario esse que não dá para o mínimo; a mortalidade infantil ainda beira com cem por mil nascidos vivos; há expulsão continuada de pequenos produtores rurais por impossibilidade de sustento material; a presença de favelas e sub-habitação ainda é marcante nas grandes cidades.
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Por outro lado, dificilmente se reconhece a pobreza politica, porque não se vê com facilidade. A opressão qualitativa, que origina desigualdades pungentes, também é pobreza, nos horizontes do ser. A infelicidade, a insatisfação, o abandono batem à nossa porta de muitos modos, que nem sempre são materiais. Não costumam matar como a fome, mas também destroem. Muitos não só poucos têm, como pouco ou nada são.

 Um povo politicamente pobre, por exemplo, é aquele que não conquistou ainda seu espaço próprio de autodeterminação, e que, por isso, sobrevive na dependência como periferia de um grande centro, como perdedor oficial no comércio internacional, como sucursal de potencia externas, como recebedor passivo de tecnologias e investimentos.
É politicamente pobre aquela sociedade tão debilmente organizada, que não passa de massa de manobra do Estado e das oligarquias, e que, por isso não consegue construir representatividade legítima satisfatória em seus processos eleitorais, com líderes excessivamente carismáticos ou caudilhescos, com serviço publico marcado pela burocratização, pelo privilégio e pela corrupção.
É pobreza politica aceitar um Estado avassalador e prepotente, bem como uma economia selvagem, É pobreza politica conviver com um estado de impunidade, de exceção, de privilégio, em vez do Estado de direito. Ao povo só deveres, sem direitos. À minoria privilegiada só direitos, como deve. Para tanto, cultiva-se o analfabetismo, o atrelamento dos sindicatos e partidos, o desmantelamento das identidades culturais, o centralismo administrativo. É pobreza politica lancinante não reivindicar direitos, mas os pedir, os suplicar, ou esperar passivamente. É pobreza politica entender o Estado como patrão ou tutela, aceitar o centro como mais importante que a base, ver o serviço publico como caridade governamental, conceber o mandante como possuidor de autoridade própria.
É politicamente pobre o consumidor que se entrega ao Estado e dele aguarda sua defesa de modo acomodado; que se encolhe diante do poder econômico que o agride; que não se organiza, para cuidar de sua defesa, de maneira democrática e competente. A muitos consumidores sequer ocorre a ideia do direito de defesa, tão habituado está a ser massa de manobra.

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É politicamente pobre o cidadão que somente reclama, mas não se organiza para agir, não se associa para reivindicar, não congrega para influir.

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