Professor da USP faz uma divertida analogia entre
partidos políticos brasileiros e tendências e ritmos musicais
Wagner Iglecias
“Bota o retrato do velho outra vez”, foi, por
exemplo, um dos grandes sucessos na década de 50
Muito se diz que os partidos políticos estão muito
desgastados. Seriam parte na crise de representação política geral que afeta
não só o Brasil, mas o mundo. Pra muita gente partido é coisa chata, pesada,
quase dispensável. De fato muitos eleitores preferem votar em pessoas, e não em
partidos. Se os partidos fossem bandas de música podíamos dizer que grande
parcela do eleitorado escolhe pela cara e pelo jeito do vocalista, e pouco se
importa com os músicos que o acompanham. Se for assim, se a metáfora vale, fica
a pergunta: e se nossos partidos políticos fossem bandas, como eles seriam?
Seguem meus palpites, já em espírito de Carnaval e das brincadeiras típicas desta
época do ano.
PSDB – Banda sofisticada, sendo que alguns de seus
músicos têm formação erudita, obtida em conservatórios no exterior. É um
conjunto que toca jazz, rhythm & blues, folk e rock progressivo. Seu ritmo
preferido, no entanto, é a bossa nova, por alguns maldosamente chamada de
“samba de apartamento”, dado seu caráter um tanto elitizado. Ressalte-se que a
cena musical brasileira andava uma bagunça quando o PSDB começou a dar o tom na
política nacional. Com a sua bossa nova os tucanos recolocaram o Brasil no mapa
musical do mundo, após as décadas de marchas militares e a barafunda melódica
dos anos 1980. No entanto desde que foram solapados na preferência do público
pelos rapazes do PT eles passaram a ser vistos por aí como uma banda meio demodée.
Mas isso não importa, afinal a bossa nova continua sendo sucesso lá fora, soa
muito bem aos ouvidos gringos, e aqui ela é quase sempre trilha sonora da
novela das nove, na qual as pessoas de bem da zona sul carioca vivem em
perfeita harmonia com o núcleo pobre da trama, oriundo de subúrbios festeiros e
felizes. Se já não é o sucesso de público de outrora, a banda tucana ao menos
continua tendo fãs entre boa parte dos críticos. E isso mesmo com muita gente
lembrando que o grupo há tempos não lança repertório novo com músicas inéditas.
PT – No início era um grupo de punk rock. Formado
por gente que vinha de variadas experiências musicais anteriores, o que unia a
todos os seus componentes era a aparente rejeição ao mercado e um desejo difuso
de revolucionar a cena musical brasileira. Sem grana, praticamente uma garage
band, o PT tocava com equipamentos precários, fazendo shows nas periferias
e portas de fábrica. Mas seus músicos eram bastante sintonizados com as novas
tendências que rolavam na Europa naquela época, fim da década de 1970, início
dos anos 1980. E sempre se identificavam muito mais com o som que o operariado
fazia naqueles tempos na Inglaterra, na França e na Alemanha do que com a
musicalidade burocrática do proletariado soviético. Cânticos católicos, pitadas
de ritmos caribenhos e o arrasta-pé do sertão nordestino também foram
influências importantes nos primeiros anos da legenda. Mas ai um belo dia, como
sempre acontece com as bandas alternativas, alguns componentes do partido
quiseram deixar de ser indies e o grupo acabou assinando um contrato com
as grandes gravadoras. A banda deu então uma repaginada no visual, trocou as
letras ácidas por canções de amor e chegou às paradas de sucesso. Alcançou não
apenas o 1º lugar entre as mais tocadas como conquistou um lugar no coração do
grande público. Obviamente que esse processo não ocorreu sem dor, e aqueles
membros que queriam se manter fiéis ao som original foram convidados a deixar o
grupo por conta das tais “ergências musicais”, sempre elas. Primeiro saiu a
turma que formou as bandas PSTU e PCO, e mais recentemente, já após o
estrondoso sucesso petista, outros componentes deixaram o conjunto musical e
fundaram o grupo PSOL. Na crítica especializada muita gente diz que a
sonoridade petista anda muito melosa e repetitiva, e que a banda já não
consegue mais compor os hitsque lhe deram sucesso no passado recente.
Entre o público, porém, o grupo parece continuar sendo o que tem a maior
quantidade de fãs. Se hoje em dia empolga as massas, o som romântico petista é
visto porém com desdém pelos adoradores de bossa nova e guarda pouca semelhança
com a proposta musical mais radical do passado.
PMDB – é uma dessas orquestras que existem há muito
tempo, com anos e anos de estrada. Sempre com muitos músicos, vindos de todas
as partes do país. Todos muito experientes, dominam os mais variados
instrumentos de corda, teclas, metais, madeiras e percussão e transitam pelos
mais diferentes ritmos. Tocam nas mais ersas ocasiões sociais e políticas. Têm
habilidade para passar da valsa ao punk, do samba ao funk, da moda de viola ao
baião. Todos que alcançam as paradas de sucesso querem ter o apoio dessa
orquestra para o caso de algum imprevisto. Foi assim com a banda tucana e tem
sido assim com a banda petista. Acostumado a secundar os artistas do momento, o
que tem faltado ao partido nos últimos tempos, porém, é um crooner. Um
popstar pra chamar de seu.
PSB / Rede – Banda que promete sacudir a cena
musical com uma batida nova, por ela batizada de “nova política”. O grupo faz um
mix de vários ritmos, como o forró pernambucano, o sertanejo universitário
engajado e os tambores da floresta. Também tem influência do som new age
de empresas ecologicamente corretas. Vai fazer sua grande estréia nos palcos no
festival musical de outubro, e muita gente aposta que pode surpreender, tocando
algo diferente dos hit parades petistas e da nostalgia musical tucana.
Seu vocalista, no entanto, parece que tem ouvido cada vez mais bossa nova. A
conferir.
DEM – Conjunto com influências musicais bastante
antigas, que vêm das extintas bandas PDS, Arena e UDN. Alguns críticos chegam a
situar os músicos do DEM como receptores da herança melódica dos antigos
partidos republicanos estaduais do início do século passado, ou até mesmo dos
partidos Liberal e Conservador da época do Império, formados por senhores de
terra. Já tocaram com a orquestra peemedebista na década de 1980, quando o
grupo chamava-se PFL, e desde os anos 1990 são parceiros musicais da banda
tucana.
PCB – conjunto musical muito antigo, de 1922,
durante décadas tocou o metal proletário que emanava do Leste Europeu. Nos anos
1990 uma parte de seus componentes deixou a banda e fundou o PPS,
aproximando-se da turma da bossa nova e lançando vários rocks com letras
críticas à banda petista. Os membros que permaneceram no grupo PCB continuaram
sua trajetória musical, que não tem nenhuma identidade melódica com o PPS..
PcdoB – grupo musical do início dos anos 1960, o
PcdoB sempre tocou uma espécie de heavy metal muito específico, que na verdade
era uma variação do metal soviético tocado pelo PCB acrescida de pitadas de
música chinesa e albanesa. Mais recentemente suavizou suas melodias e tem se
apresentado em shows conjuntos com a banda petista.
PDT – Tocava os bolerões dos anos 1950 até algum
tempo atrás. “Bota o retrato do velho outra vez” foi, durante muito tempo, a
canção mais executada pela banda. Depois do desaparecimento de seu lendário
vocalista, que gostava do vanerão, do xote gaúcho e da milonga mas curtia
também fazercovers de punk e metal, enveredou por ritmos musicais
mais suaves.
PSOL – banda formada por ex-músicos petistas, quer
recuperar o punk visceral do PT de raiz. Seguem buscando a batida perfeita, mas
as vezes parecem estar mais preocupados é em se diferenciar das melodias
românticas do petismo.
PSTU e PCO – seguem fazendo o punk e o metal que
agradam a uma pequena parcela da sociedade, a qual lhe é muito fiel. Mas
permanecem desconhecidos do grande público.
PP, PR e PTB – À semelhança da banda peemedebista,
porém sem tantos componentes como aquela orquestra, são grupos musicais
formados por gente que já tocou por todo o país, com os mais variados artistas
e os mais variados ritmos. Experiência e capacidade de adaptação não faltam a
estes grupos.
PV – Banda surgida nos anos 1980, época da new
wave. Muitos achavam que o grupo fazia um som cabeça, conceitual, com
letras inovadoras que iam muito além da velha temática capital / trabalho tão
comum no repertório de tantos outros conjuntos. A banda tinha um vocalista
moderno, forjado na resistência às marchas militares da década de 1960, mas
acabou não alcançando o sucesso de público que se esperava. Mais recentemente o
grupo se apresentou em conjunto com a banda tucana.
PSD – Banda criada há poucos anos, segundo muitos
críticos seria um projeto solo de seu vocalista. Em pouco tempo atraiu muitos
músicos de outros grupos e aos poucos tem conquistado fatias importantes da
cena musical brasileira.
PSC – Grupo musical surgido em cultos religiosos,
tem grande potencial de crescimento visto que há cada vez mais gente curtindo
música gospel neste país.
PROS e SDD – bandas novas, mas formadas por
componentes que já tocaram em muitos outros grupos. Também estrearão no
festival de outubro.
Para além das bandas, há outros ritmos bombando por
ai. Tem uma garotada tocando bumbo nas ruas, sem ligar muito para os partidos.
Ainda não é certo se o som que fazem terá influência no festival. Pra alguns
eles não sabem ler partitura e só fazem ruído. Pra outros eles estão fazendo
uma bela jam session nas ruas desse país e criando a playlist dos
próximos anos na política nacional. A ver. E há ainda quem diga que o festival
de outubro poderá ter um cantor solo, estreando nos palcos da política com sua
ária, talvez aguardada ansiosamente por uma parcela não-desprezível da platéia.
Será? Sem banda, qual seria o compasso de sua campanha e o arranjo de seu
eventual governo?
Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor
do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de
Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP.
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