Ana Augusta Carneiro
Homofobia
é uma palavra cujo significado implica medo daquele que sente atração sexual
por individuo do mesmo sexo. Ou seja, é o medo do homossexual. Apesar do nosso
costume em usar essa palavra, sua prática extrapola a fobia propriamente dita.
Podemos afirmar, sem correr o risco de estarmos exagerando, que há em todo o
mundo um conjunto de atitudes marginalizadoras que seguem aqueles de orientação
homossexual. Nesse sentido, o termo homofobia,
tão comumente usado, é incapaz de abarcar tudo o que a homofobia realmente
envolve. Esse termo deveria ser substituído¹ minimamente pelo conceito de preconceito sexual. O preconceito sexual se caracteriza no dia a
dia pela totalidade das atitudes marginalizadoras de sexualidade não
heterossexuais.
Esse
tipo de preconceito sexual parece estar vinculado ao fato de existir em grande
parte das diferentes culturas uma predominância heterossexual. A predominância heterossexual
vem sendo usada para justificar o que chamamos de heteronormatividade².
Heteronormatividade é a crença dos heterossexuais em determinar sua orientação
sexual, não só como dominante, mas também como uma passibilidade unânime
absoluta. Há embutida nessa visão de mundo que os seres humanos recaem em duas
categorias distintas e completares: macho e fêmea. E, por isso relações sexuais
e maritais são normais somente entre pessoas de sexos diferentes. Há também a
defesa que em função da heteronormatividade cada sexo tem certos papéis
naturais na vida. Em outras palavras, o ato sexual físico, a identidade de gênero
e o papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa dentro de normas
integralmente masculina ou feminina – sendo a heteronormatividade considerada a
única orientação sexual normal. As normas às quais a heteronormatividade
implica podem ser abertas, encobertas ou implícitas. Essa é uma tese
ultrapassada desde 1789, quando entramos na contemporaneidade e com isso num
mundo de inclusão e entendimento da diversidade. A contemporaneidade nos deu o
direito de aceitação daquilo que é plural – daquilo que é diversificado.
Qualquer um que acredite e defenda a heteronormatividade com base em sua
predominância estará em última instância negando seu próprio tempo e realidade.
Além
da predominância dos indivíduos heterossexuais, na maioria das culturas, outra
premissa usada para justificar a heteronormatividade consiste na associação
heterossexual a com a reprodução. Crê-se que a reprodução da espécie e sua
manutenção estão necessariamente vinculadas ao ato sexual heterossexual,
considerado o único legítimo por natureza³. O Ato sexual homossexual, por não permitir
reprodução da espécie, se torna automaticamente, dentro dessa perspectiva, um
ato inadequado e inapropriado. Assim sendo, sujeito a ser banido, perseguido e
combatido.
A
utilização desse tipo de raciocínio para sustentar a normatividade
heterossexual poderia ser plausível no mundo antigo, medieval e moderno, quando
pouco ou nada se sabia sobre reprodução humana. Era tamanha a ignorância nesse
período sobre tal assunto que sexo dos bebês era atribuído às mulheres.
Mulheres que por sua vez pagava o preço altíssimo quando não pariam os varões
que a sociedade tanto cobrava. Pagava o preço da nossa ignorância. Do mesmo
modo com a contemporaneidade responsabilizou os cromossomos XY pelo sexo dos
bebês, também libertou a reprodução humana das vias naturais. Ou seja, a
reprodução da espécie não depende mais do ato sexual físico e pode ser
garantida artificialmente. São técnicas inovadoras de inseminação que
beneficiam todos os tipos de família. Não só as técnicas de inseminação
artificial permitem novas formas de reprodução, como também a legalização de
barriga de aluguel proporciona que casais homossexuais se reproduzam
consanguineamente. Na verdade já estamos caminhando para algo bem mais
elaborado do que o simples uso de ovócitos e barriga de aluguel. O avança
científico permitirá que casais de mulheres homossexuais sejam capazes de se
reproduzirem consanguineamente tal qual casais heterossexuais4. Tudo
indica ser perfeitamente possível extrair e isolar cromossomos dos gametas de
uma mulher inserindo-os, posteriormente, no ovócito de sua parceira. A gestação
poderia ser feita no útero de qualquer uma das duas. Somente nasceriam meninas,
dadas a predominância de cromossomos XX. Essas meninas seriam biologicamente
filhas de duas mães, e quando submetidas a teste de DNA só haveria,
necessariamente, vinculo genético das duas mulheres que geraram – com total
ausência de DNA masculino.
Nesse
sentido, para aqueles que ainda procuram sustentar a homofobia com base na
impossibilidade reprodutiva entre os homossexuais haveria novo problema: a
continuidade da espécie somente pelo sexo feminino e a extinção do gênero
masculino. Isso implicaria a real supremacia feminina no que concerne à
reprodução humana – dado que, até o momento, o útero é a única garantia de
reprodução insubstituível.
Portanto,
a crença de que somente relações heterossexuais são legitimas com base na
reprodução da espécie, ou com base na reprodução natural, se torna irracional.
É uma tese passada (primitiva) e deixada para trás desde que a inseminação
artificial foi inventada em meados finais do século passado.
Contudo,
a normatização da sexualidade heterossexual com base na possibilidade
reprodutiva tem ainda outro grande equivoco: a premissa de que nós nos
relacionamos sexualmente exclusiva e estritamente para procriar. Essa tese vem
sustentando atos de violência em todo o mundo, não só contra homossexuais como
também contra as mulheres.
¹- Ana
Augusta Carneiro - Licenciada
e Bacharel em Filosofia pela UNICAMP, especialista em Filosofia e mestre em
Filosofia da Arte pela UFOP autora do livro: Novo ensino da Filosofia no
Brasil, docente da UNINASSAU – Recife - PE.
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