Por Alexey Dodsworth – Magnativa ¹
Mesmo
que você não seja um homossexual, quase com certeza conhece ou convive com um.
E, independentemente de qual seja a sua postura diante dessa pessoa, você
provavelmente já parou para pensar: “por
que existem homossexuais?” Ou, se você mesmo tiver desejos homoeróticos, já
deve ter se apercebido imerso no pensamento especulativo “Por que sou assim?”.
Resposta e argumento não faltam, desde os mais esotéricos até científicos. Tais
argumentos nada satisfatórios para o filósofo francês Michael Foucault (1926 –
1984). Para ele, tudo o que se diz sobre as supostas causas da homossexualidade
é de uma simplicidade ingênua. Sobre isso, Foucault levanta importantes
questões: o que está por trás desta incessante por uma explicação? A maior
parte de seus questionamentos sobre o tema se encontra em Ditos e Escritos e em A
Historia da Sexualidade.
Foucault
é eventualmente mal compreendido e, em geral, os erros de leitura em relação à
sua obra decorrem de recortes malfeitos daquilo que ele efetivamente disse. Um
dos pontos em que se instaura a má compreensão está na crítica que o filosofo
faz em relação a alguns pontos dos movimentos de liberação gay. O que ele
critica não é a afirmação do desejo
homoerótico, o que seria estranho, posto que ele mesmo tinha orientação homossexual.
O perigoso, segundo Foucault, é a afirmação deste desejo a partir de argumentos
biológicos e naturalistas, ou seja, a conversão de desejo e identidade biologicamente determinada.
Em
uma entrevista realizada em Toronto, em 1982, Foucault diz: “O que eu quis
dizer é que, na minha opinião, o movimento homossexual hoje precisa mais de uma
arte de viver do que uma Ciência ou de um conhecimento científico (ou
pseudocientífico) daquilo que é a sexualidade”. Em síntese: segundo Foucault,
muitos homossexuais estão por demais paralisados na busca continua por algo que
explique a causa de seus desejos, no lugar de viverem estes desejos.
O
posicionamento cauteloso das causas da homossexualidade irrita principalmente
algumas correntes, que preferem o determinismo biológico como uma forma de
convencer que homossexualidade é natural e, por conseguinte, deve ser aceita.
Que a homossexualidade é natural isso deveria ser evidente, pois o que não
falta na natureza são exemplos de relações homossexuais entre animais. Além
disso, o argumento que contesta a homossexualidade a partir da natureza é falho
pois, se fôssemos seguir firmemente o que é natural, não forçaríamos a
existência da monogamia e, convenhamos, sequer vestiríamos roupas.
O
que alguns militantes não percebem é que a defesa do desejo homossexual como uma identidade
biologicamente determinada pode ser combustível perfeito justamente para os
homofóbicos. Afinal, se provamos que o desejo homossexual é fruto de
singularidade física, tudo isso poderia ser tratado por terapêuticas, do mesmo
modo que corrigimos a miopia ou outra singularidade fisiológica incômoda.
Foucault, mais de uma vez, apontou para o fato de que a vida é uma escolha
entre perigos. Não existe um “caminho ideal”, mas sim riscos mais ou menos
administráveis. Apostar num determinismo biológico que, por si só, seja
fundamento para o desejo homoerótico é um perigo, pois não implica
necessariamente em aceitação – os homofóbicos podem argumentar que tal condição
seria uma doença, uma aberração medicamente tratável.
Foucault
critica, em primeiro lugar, a falácia de causa única, seja ela qual for, física
ou psicológica; em segundo lugar, os perigos decorrentes da abordagem da
homossexualidade como uma doença biológica passível de tratamento. Neste
sentido, podemos observar ao menos uma interseção entre Foucault e Sigmund
Freud (1856 – 1939), não obstante as discordâncias em outras esferas. Freud também
era contrario à ideia de causa única, muito embora se pense – equivocadamente –
que o pai da psicanalise tentava explicar a homossexualidade a partir do
problema de um pai ausente e uma mãe dominadora, sempre. A leitura dos Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade,
publicado pela primeira vez em 1908, mostra o que Freud efetivamente disse:
“Nem
a hipótese de que a inversão é inata, nem tampouco a conjectura alternativa de
que é adquirida explicam sua natureza. No primeiro caso, é preciso dizer o que
há nela de inato, para que não se esconde com a explicação rudimentar de que a
pessoa traz consigo, em caráter inato, o vinculo da pulsão sexual com
determinado objeto sexual. No outro caso, cabe perguntar se as múltiplas
influencias acidentais bastariam para explicar a aquisição da inversão, sem
necessidade de que algo no indivíduo fosse ao encontro delas. A negação deste
ultimo fator, segundo nossas colocações anteriores, é inadmissível."
Está
muito claro que, para Freud, é insatisfatório definir uma única causa para a
existência de pessoas que desejam o mesmo sexo. Como se vê, Freud ainda estava
preocupado com a questão da causa, muito embora deixasse claro, ao longo de
suas pesquisas, que provavelmente dois homossexuais não desejam o mesmo sexo
pelas mesmas razões.
A CIÊNCIA A SERVIÇO DE IDEOLOGIAS POLITICAS
A
investigação histórica deixa claro o quanto alguns discursos científicos se
encontram atrelados a ideologias especificas, inviabilizando uma suposta pureza
e tornando a Ciência um instrumento a serviço de grupos particulares. Nestes
casos, não haveria uma relação exuberante entre Ciência e ideologia; haveria,
isso sim, uma retroalimentação. Se é possível uma ciência de fato pura e isenta
de ideologias, isso é assunto para uma discussão – e outro artigo.
No
que tange aos homossexuais, só o fato de nos referirmos a um desejo (gostar do
mesmo sexo) como uma identidade (“ser” algo) já conduz a interpretação
equivocada, a partir das quais se infere que existem comportamentos comuns,
características de personalidade, destinos específicos ligados a uma “essência
homossexual”. Seja na forma de critica (“homossexuais são mais promíscuos e
traem mais”), seja na forma de elogios (“homossexuais são mais sensíveis e
inteligentes do que heterossexuais”) vejo o que está implicado neste discurso:
a ideia de uma essência inata, a ideia de uma especificidade biologicamente
determinada que torna todos as desejantes do mesmo sexo como fazendo parte de
um subconjunto modelar. Até mesmo entre alguns grupos de militantes gays contemporâneos, o mais importante
parece ser a afirmação de uma identidade (“eu sou gay”) do que as implicações do desejo (“o que eu desejo? Como posso
experimentar a vida a partir dos meus desejos?”) e assim, deixam – se de buscar
as diferenças que singularizam (“no que eu, gay, defiro dos outros gays?”). Evoca-se que as pessoas “saiam
dos armários” como uma obrigatoriedade ideológica. O homem homossexual que “não
se declara” é tido como covarde e mentiroso, pois o desejo deve ser tornado
público e posto a serviço de uma ideologia.
Nas
situações confessionais (desde a confissão sacerdotal até a Psicanálise) o
sujeito desejante produz u discurso sobre sua própria sexualidade, que será
consequentemente interpretado por um “sujeito suposto saber”, uma autoridade.
Ocorre que, para Foucault, a verdade revelada neste processo não se trata de
uma descoberta, e sim de uma produção.
Trata-se de um espaço de veridição, ou seja, de construção de um discurso que
estará vinculado a uma ideologia e a interesses que estão além do sujeito e
dissolvendo toda a sua singularidade num conjunto de universais que ajustam as
pessoas a um todo que confirma – e na verdade constrói – uma identidade.
O SURGIMENTO DO HOMOSSEXUAL
Um
dos pontos mais provocativos da obra de Foucault está em suas afirmações de que
“o homossexual” enquanto categoria tem data de nascimento: 1870, com o artigo
de Carl Westphal (1833 – 1890), As
Sensações Sexuais Contrarias. Aqui, é importante salientar o que Foucault
não disse, a fim de dirimir eventuais mal entendido: ao dizer que o
“homossexual” tem data de nascimento, isto não significa que homens não faziam
sexo com homens antes de 1870. A diferença fundamental é que, a partir do
século XIX, o discurso vigente falava a respeito de “uma espécie”, “uma categoria”
de criaturas a quem chamamos de “o homossexual”. Antes de 1870 havia a
recriminação contra atos
homossexuais, mas supostamente não se aventava que existisse algo como o
homossexual substantivado. Um individuo que praticasse o coito homoerótico não
era rotulado como pertencente a uma subclasse especifica da humanidade, e
bastava a ele que – após o ato confessional – se redimisse a partir de algumas
práticas que o “purificariam” do ato. O sujeito não era algo, ele tinha feito
algo. O investimento das instituições de poder vigente (a igreja, mais
especificamente) nesta direção se limitava a prescrever orações como forma de
redenção contra o ato dito “pecaminoso” (embora nos séculos XVI e XVII muitos
tenham sido mortos pela Inquisição, por conta de práticas homossexuais). A
partir de 1870 ocorre uma mudança de paradigma, nasce o conceito de “o
homossexual”, uma entidade singular essencialmente determinada, alguém com uma
diferenciação de desejo que abarcava toda a inteireza de seu ser.
Quando
Foucault afirma que “o homossexual” é construído, ele não esta afirmando que as
pessoas se ornam homossexuais por conta de influencias ambientais. O fato é que
se descobrir desejando o mesmo sexo a partir da década de 1870 passou a ter uma
implicação diferenciada: o sujeito não estava apenas tendo desejo, mas ele se
descobria parte de um subconjunto da humanidade. Esta marca, este estigma recai
sobre o sujeito como um ferro de marcar gado. Afinal, ele pertencia a uma
classe que havia se tornado alvo de estudos científicos. Não era ele quem dizia
de si, de seu desejo, e sim as autoridades.
O
começo do século XX foi marcado pelo surgimento de diversas “tecnologia do
sexo” e “ciências da sexualidade”, que se encontrava assaz comprometida com o
objeto do preservar e promover a força laboral produtiva e propiciadora,
servidora de um sistema capitalista em desenvolvimento cujo centro fundamental
era a família burguesa. Deste modo, homossexuais evidentemente incomodavam por
constituírem uma anomalia no sistema que exigia a procriação. O homossexual foi
transformado numa “espécie” ameaçadora de máquina – como se uma minoria que não
se reproduz ao praticar sexo fosse realmente induzir a humanidade à extinção!
Com
a psiquiatrização da homossexualidade no fim do século XIX, surgiu o pensamento
equivocado de que tudo no homossexual se resume ao sexo, ele está imerso em sua
própria sexualidade, deste modo, as identidades são construídas a partir desta
crença. Tudo se resume a este pequeno detalhe. Conforme diz Foucault:
“O
homossexual do século XIX torna-se um personagem: um passado, uma historia, uma
infância, um caráter, uma forma de vida; também morfologia, com uma anatomia
indiscreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. Nada daquilo que ele é, no fim
das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a
todas as suas condutas, já que ele é o principio insidioso e infinitamente
ativo das mesmas; inscrita sem pudor na sua face e no seu corpo já que é um
segredo que se trai sempre. É-lhe consubstancial, não tanto como pecado
habitual, porém como natureza singular.”
Foucault
não nega eventuais indícios biológicos para as preferencias sexuais. Ele jamais
afirma que não existe um fator biológico; o que ele rejeita é a militância pautada e justificada na Biologia. A questão
é: a que serve este conhecimento? Com qual ideologia ela está implicada? São
perguntas que não permitem uma atitude ingênua.
No
inicio dos anos 1980 e até sua morte, Foucault irá declarar – em mais uma
ocasião – que a grande questão não é descobrir-se
gay, e sim tornar-se gay. Este é
outro posicionamento mal compreendido em seu discurso. Ele não está dizendo que
todos deveriam ser homossexuais, até que por que para Foucault, “homossexual” e
“gay” não são sinônimos. É preciso, neste ponto do texto, diferenciar o termo “gay” de “homossexual” pois, apesar de
aparentarem relação sinônimas, possuem uma notável diferenciação histórica.
HOMOSSEXUAL VERSUS GAY
“Homossexual”,
conforme já vimos, é um termo que surge no contexto do final do século XIX, e
ilustra uma suposta categoria de individuo portadores de uma doença misteriosa.
A construção conceitual “colou” com tamanha força que apenas no final do século
XX a homossexualidade foi retirada do rol de distúrbios listados pelo Catálogo
Internacional de Doenças. Até a década de 1960, “homossexual” foi o termo
utilizado, carregado de implicações médicas, legais, psicológicas.
Mas,
nos anos 1960, paulatinamente alguns homens e mulheres passaram a se referir a
si mesmo como gays, do inglês “alegre”, o que provocou consternação em muitas
pessoas de sexualidade dita “normal”, uma vez que um vocábulo comum tinha sido
“sequestrado” por um assim dito “grupo pervertido”. A diferença mais
substancial entre os termos “gay” e “homossexual” está no fato de que, enquanto
a categoria “homossexual” era um objeto de conhecimento das biociências, os
gays eram um grupo específico que afirmava ostensivamente um posicionamento
político. Um grupo que lutava por seus direitos, pela descriminalização, um
grupo que que lutava em prol do respeito às diferenças. “Ser gay”, portanto,
seria questão de orgulho, e não de patologia. Seria uma postura de resistência
contra as normatividades, uma resistência na qual o sujeito, dizendo-se gay,
está a dizer: sou feliz desejando o que desejo, e não me sinto mal por isso. Do mesmo modo que os movimentos feministas
conquistaram espaço para as mulheres ao longo dos mesmos anos 1960, os
movimentos gays se negaram a assumir para si a representação de sujeitos
portadores de uma patologia. A partir desde ponto de vista, nem toda pessoa que
deseja o próprio sexo é gay. Ela é alguém que deseja o próprio sexo, e apenas
isso: um homossexual. Mas ser gay é uma conquista pessoal, é assumir uma
postura política, é lutar por um mundo em que as diferenças são respeitadas.
Para Foucault , nem todo homossexual é gay, e não será enquanto permanecer
paralisado em um sentimentos de culpa e submisso a um discurso patológico.
Ao
longo de Ditos e Escritos, Foucault aponta para o fato de que é preciso
procurar ser gay, ou seja, assumir uma postura ativista, militante, que luta por
um lugar ao sol. Mais do que simplesmente copiar os modelos heteronormativos,
“ser gay”, segundo Foucault é se aproveitar de suas diferenças a fim de criar
novas formas de relação, inventar novos estilos de vida. “Ser gay” não se
resumiria, portanto, a batalha por uma inserção no estado vigente. O filosofo,
em momento algum, pretende limitar sua abordagem à conquista de direitos
existentes, como o direito ao casamento entre homossexuais, mas como um
militância sem fim, que vai além do que existe atualmente. Sobre a questão do
casamento gay, por exemplo, Foucault reconhece que tal conquista é importante,
mas que limitar a luta à mera reprodução do modelo conjugal heteronormativo
seria um empobrecimento, uma perda de oportunidade de realizar mudanças
significativas. O que ele propõe é algo muito mais revolucionário do que muitos
militantes gays poderiam se quer aventar: a utilização da própria condição
marginal como uma forma de transformar a estrutura da sociedade.
Todo
programa de invenção deveria ser aberto. Segundo o filósofo. Em sua entrevista
intitulada A amizade como modo de vida, ele deixa claro que todo programa deve
ser vazio. Recusando-se a prescrever o futuro e a assumir o papel de “guru
gay”, ele também exprimia diversas reticências em relação ao partido,
salientando a importância de movimentação espontânea, não necessariamente
ligada ao governo:
“Desde
o século XIX, as grandes instituições políticas e os grandes partidos políticos
confiscaram o processo de criação da política, quero dizer por aí que ele
tentaram dar à criação política a forma de um programa político, a fim de se
ponderar do poder. Penso no início dos anos 1970. Uma das coisas que é preciso
preservar, na minha opinião, é a existência, fora dos grandes partidos
políticos, e fora do programa normal ou ordinário, de uma certa forma de
inovação política, de criação política e de experimentação política. É fato que
a vida cotidiana das pessoas mudou entre
o início dos anos 1960 e agora, e minha própria vida mostra isso. É evidente
que não devemos essa mudança aos partidos políticos, mas a numerosos movimentos.
Esses movimentos sociais de fato transformaram nossas vidas, nossa mentalidades
e nossa atitudes, assim como as atitudes e mentalidades de outras pessoas –
pessoas que que não pertenciam a esses movimentos”.
Por
fim, por mais que o gênero pareça ser um componente fundamental de nossas
identidades, sejam elas “gays” ou “heteros”, nós somos muito mais do que nossos
gostos sexuais – e é curioso notar como, em termos de gostos, o desejo sexual
parece ter tanta importância em nosso mundo, a ponto de ninguém pensar em se
definir ou se rotular por que gosta, por exemplo, de comer ostras ao vinho ou
beber suco de manga. As palavras que usamos e os pensamentos que fomentamos
definem as “coisas” que somos, como uma construção contínua da realidade, que
será mais ou menos rica a depender de nossa militância individual em prol de um
mundo mais rico em termos de possibilidades relacionais. Um mundo em que as
diferenças são respeitadas, ainda que não inteiramente compreendidas. A
bandeira do arco-íris, deste modo, seria a representação de um desejo sexual.
Seria a representação daquilo que vem após as tempestades, um sinal de aliança
e de coexistência possível das diferentes cores, num mundo que viabilize o
encontro e a amizade entre as pessoas.
O GENE GAY – CIÊNCIA A SERVIÇO DE IDEOLOGIAS
A
busca por uma “essência biológica” para o homossexual persiste no imaginário
popular, sobretudo por conta da divulgação de pesquisas (refutadas) em torno do
suposto gene gay. Falo especificamente sobre uma das pesquisas mais conhecidas
sobre a homossexualidade e Biologia, realizada pelo biólogo molecular Dean
Hamer (1951) em 1993. Nesta pesquisa, Hamer afirma que a homossexualidade é
natural, assim como se pode nascer com olhos azuis, ser albino e tantas outras
características geneticamente estabelecidas. Foucault não teve a oportunidade
de se deparar com a pesquisa de Hamer, uma vez que já era falecido há quase dez
anos, mas os acontecimentos envolvendo o suposto gene gay na década de 1990 têm
relação direta com as percepções de Foucault em sua Historia da Sexualidade.
Hamer
publicou na edição de 16 de julho de 1993 da revista Science um artigo
intitulado Uma ligação entre marcadores de DNA sobre o cromossomo X e a
orientação sexual masculina. O artigo causou impacto na imprensa da época,
suscitando posicionamentos entusiasmados por parte de alguns militantes gays. Ironicamente,
com igual entusiasmo reagiram alguns homofóbicos, afinal – no raciocínio deles
– se há uma causa biológica para a homossexualidade, ela poderia ser curada.
Curiosamente, entre entusiastas pró e antigays, quase nenhum investigou o
conteúdo científico do artigo que causou tamanho tumulto. Em verdade, Hamer não
havia identificado um gene gay. Seria possível dizer, no máximo, que ele
transpôs as primeiras etapas que poderiam eventualmente, mas não
indubitavelmente, identificar um gene gay. Com esta pesquisa, Hamer no máximo
tinha a presunção, um indício de algo, mas jamais poderíamos dizer que um gene
gay foi descoberto. O fato de existirem marcadores concordantes entre trinta
pares de irmãos gays pode muito bem ter diversas outras explicações que nada têm
a ver com preferência sexuais. E Hamer sabia disso, mas pareceu ignorar as
alternativas. Tanto que sua pesquisa foi contestada por vários trabalhos
posteriores como a investigação realizada em 1999 pelos médicos Rice, Anderson,
Risch e Ebers, intitulada Homossexualidade masculina: Ausência de Marcadores em
Xq28.
Ora,
na medida em que se verifica que Hamer “pulou” etapas importantes do processo
científico de investigação por esta comprometido com uma ideologia (ainda que
bem intencionada e preocupada com os direitos humanos), percebem-se os perigos
que emergiram a partir de tudo isso, estigmatizando homens não-homossexuais
portadores do “genes suspeito” Xq28, rotulando-os como “enrustidos”, e
cobrando-lhes a confissão social de seus supostos desejos.
REFERÊNCIAS
FOUCAULT,
Michel. Os anormais. Martins Fontes.
FOUCAULT,
Michel. Historia da sexualidade – a
vontade de saber. Graal, 2007.
FREUD,
Sigmund. Três Ensaios Sobre a Teoria da
Sexualidade. Imago.
PRACONTAL,
Michel. A impostura Científica em dez
Lições. Editora UNESP.
CASTRO,
Edgardo. Vocabulário de Foucault.
Editora Autêntica.
1 Mestrando em Filosofia Politica e Ética pela Universidade de São Paulo - USP, graduando em Astronomia também pela Universidade de São Paulo - USP e é membro da MENSA Brasil.
Texto retirado da REVISTA
CIÊNCIA&VIDA FILOSOFIA
ANO VI Nº 70 – DE MAIO 2012



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