Aron Édson Nogueira
Barbosa
Bacharel (Antropologia), licenciado em
Ciências Sociais e Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade de Juiz
de Fora. arongifoni@hotmail.com
Na sociedade moderna, de forma geral, nos
deparamos por um crescente surgimento de novas religiões e denominações.
Atrelado diretamente a isso está também o fluxo corrente de pessoas entre essas
novas religiões. De acordo com as observações feitas durante o período de
pesquisa, verificamos que a Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD) é uma das
muitas igrejas que estão nesse caminho por onde as pessoas passam. Essa igreja
surge da cissiparidade com a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD),
resultado de um possível conflito entre Valdomiro Santiago (fundador da IMPD) e
Edir Macedo (fundador da IURD).
Essas igrejas possuem traços que são comuns a
todas as igrejas neopentecostais, sendo mais visada pela população e mais
divulgada pelas igrejas a tríade cura/exorcismo/prosperidade. No caso da IMPD,
existe uma ênfase na cura divina. Programas de TV e de rádio, jornal e livros
enfatizam os testemunhos dos fiéis que foram curados após receberem a oração de
Valdomiro Santiago e de seus pastores.
O exorcismo te uma importância fundamental no
neopentecostalismo. Ele é o responsável pela libertação das pessoas daquilo que
lhes causa mal, e também é a chave para que as portas da prosperidade sejam
abertas. Ou seja, se as pessoas têm doenças, estão desempregadas, desmotivadas,
têm dependência química, é porque, possivelmente, estão possuídas pelo demônio.
Todos os males biológicos, psicológicos, sociais, entre outros, são causados
pelas forças do mal, por aquele que adoram o demônio e não têm uma vida regrada
nos ensinamentos de Deus e da Igreja. Essa ideia vem acompanhando a evolução do
cristianismo ao longo dos anos. O demônio existe, é causador do mal, qualquer
pessoa está sujeita às suas ações, e se a pessoa não consegue nada próspero na
sua vida, é por causa dele.
LIBERTAÇÃO DO MAL
Na IMPD, o exorcismo é tratado de forma
diferente, e é chamado de “libertação”, assim como na Renovação Carismática
Católica. A Libertação pode ser individual ou coletiva. A forma individual se
dá por meio de orações entre o pastor e o fiel. O pastor profere máximas, pedindo
a Deus que afaste todos os males da vida daquele fiel. Entre eles maldição e
macumbaria. A libertação coletiva acontece nos cultos dedicados à cura divina,
e o pastor ou bispo ora por todos que estão ali. O dirigente do culto chama à
frente as pessoas que desejam algum milagre, faz um momento de oração pedindo a
Deus que intervenha na vida daquelas pessoas, e logo depois inicia o ritual de
libertação.
De acordo com Almeida (1982), as religiões
neopentecostais, de forma geral tendem a demonizar elementos das religiões
afro-brasileira¹ e espíritas. Durante as décadas de 1970 e 1980, as
denominações pentecostais ganhara maior visibilidade no campo religioso
brasileiro, e como estas tinham grande ênfase na batalha espiritual contra as
outras denominações religiosas, as afro-brasileiras e espiritas se tornaram os
inimigos número 1 das igrejas neopentecostais. A libertação (ou exorcismo) e
peça central da dinâmica dos cultos, uma vez que os males da vida encontram sua
origem em Satanás e seus demônios, que estão travestidos pelos exus e pelos
espíritos. O desemprego, a miséria, a crise familiar são, quase sempre, de
origem maligna. O exorcismo, sob intervenção do pastor, expele as forças
satânicas do corpo do crente restituindo a saúde mental e corporal. A IMPD não
tem um discurso claro que atribua exus e entidades à ação demoníaca. Contudo,
fala-se em trabalhos de macumbaria no momento das orações individuais e
coletivas.
As igrejas neopentecostais dão uma identidade
ao diabo, retirando-o da subjetividade do universo pentecostal e colocando-o em
um plano objetivo. Assim, o diabo se faz presente não só na pessoa, como também
no ambiente, e todos podem vê-lo, pois o possuído deixa de agir por conta
própria e passa a ser controlada pelo diabo. De certa forma, podemos dizer que
o diabo é peça-chave para a existência do neopentecostalismo. Uma vez que a sua
proposta é o combate sistêmico a Satanás e seus demônios, ele próprio não
existiria sem a presença dos demônios na vida das pessoas.
CURA DIVINA
O fiel que quer receber a cura divina precisa
se submeter a um ritual de libertação, que é o exorcismo descrito acima. A
partir dessa libertação, o fiel está pronto para que Deus opere nele um
milagre. De acordo com Csordas (2008), a cura pode ser dividida em três
aspectos principais: o procedimento, o processo e a conclusão.
O procedimento diz respeito aos sujeitos
envolvidos no ritual da cura e os objetos ou oração ou até medicamentos que são
usados. Portanto, o procedimento do ritual de cura na IMPD envolve a ação sacra
dos pastores (ou demais partícipes hierarquizados da igreja), que invocam a
ação divina para que os demônios que residem em cada pessoa que está ali para
ser curada possam ser expulsos; para isso, utilizam de orações e dizeres
espontâneos parecidos com o ritual de exorcismo iurdiano, e também utilizam-se
de toque com as mãos na cabeça das pessoas, simulando um gesto que se
caracteriza pela retirada de alguma coisa da cabeça dos fiéis. A partir daí,
algumas pessoas alteram o seu estado de consciência, o que caracteriza que o
demônio esta se manifestando nela; algumas pessoas desmaiam, outras gritam e
conversam de modo agressivo com os pastores, e como outras nada acontece.
O segundo aspecto do ritual de cura é o processo.
Entendemos essa característica como sendo o estado da pessoa, seja ele físico
ou psicológico, durante o ritual. O que ocorre, na verdade, é um misto de
emoções que vão de um simples lacrimejar de olhos até os gritos mais
desesperados de dor e sofrimento. Quando o ritual de libertação acaba, podemos
perceber nas pessoas um semblante calmo, tranquilo, totalmente diferente das
manifestações agitadas que acabaram de acontecer ali. Me parece, à primeira
vista, uma espécie de transe coletivo, que se encerra ao comando do dirigente
do culto, quando convida todos os presentes a soltarem um grito bem alto,
caracterizando, de fato, que a ordem é para que o demônio saia das pessoas. Os
gritos diziam: Sai... Sai... Sai.
O terceiro aspecto, que é a conclusão, é para
nós o mais importante. Esse aspecto diz respeito à disposição final dos
participantes em relação ao seu nível declarado de satisfação com a cura, ou
seja, é o momento e, que o fiel se manifesta em relação ao seu objetivo em
estar ali, vai declarar (ou não) se recebeu a cura de Deus, se alguma dor ou
doença que ele sentia foi sanada a partir da intervenção divina. Quando acaba o final do ritual de libertação,
o pastor convida as pessoas que quiserem a dar o seu testemunho de fé, que nada
mais é do que o discurso dos crentes que receberam o milagre. Varias pessoas se
voluntariam, sendo que algumas delas receberam a cura naquela hora, e outras
receberam em outros momentos, como em orações pelo rádio e televisão. Nessa
hora, as pessoas se manifestam em relação à dor que estavam sentindo e que não
sentem mais, àquela doença que se extinguiu sem explicações médicas, o emprego
que não aparecia e que agora foi conseguido, enfim, muitas outras necessidades
que os crentes buscavam através de Deus e que, quando conseguem, atribuem à
ação divina.
RITUAL SAGRADO
O que nos interessa aqui não são explicações
comprovadas cientificamente acerca dos milagres. O que importa para nós é a
eficácia simbólica da cura, e o que ela representa para o fiel. De acordo com
Lévi-Strauss (1975), “a cura consistiria, pois, em tornar pensável uma situação
dada inicialmente em termos afetivos, e aceitáveis para o espirito das dores
que o corpo se recusa a tolerar. Que a mitologia do xamã não corresponda a uma
realidade objetiva, não tem importância: a doente acredita nela, e ela é
membros de uma sociedade que acredita. Os espíritos protetores e os espíritos
malfazejos, os monstros sobrenaturais e os animais mágicos fazem partes de um
sistema coerente que fundamenta a concepção indígena do universo. A doente os
aceita, ou, mais exatamente, ela não os pôs jamais em duvida. O que ela não
aceita são as dores incoerentes e arbitrárias, que constituem um elemento
estranho a seu sistema, mas que, pelo apelo ao mito, o xamã vai reintegrar num
conjunto onde todos os elementos se apoiam mutuamente”.
Não estamos tratando aqui de um ritual
indígena. Portanto, podemos transpor para o universo em estudo a estrutura do
texto acima, transformando a em figura do xamã no pastor, a concepção indígena
do universo em teologia neopentecostal e todos os demais traços míticos de
monstros e espíritos e demônios. Dessa forma, podemos dizer que a cura depende,
exclusivamente, de quem a procura. Ou seja, não adianta querer a intervenção
divina se não se aceita a mesma, ou não acredita no que será feito. O ritual de
cura, atrelado diretamente à libertação, faz parte do universo religioso da
IMPD e reúne os fiéis numa igual perspectiva de crença, o que facilita a
conclusão positiva do milagre.
Dessa forma, podemos dizer que a cura
acontece a partir do emaranhado de significados que são colocados na vida do
crente, e para tal ele deve acreditar no ritual, na possessão por demônios e no
exorcismo deles, como forma de libertação, de limpeza do organismo para que
aconteça a ação de Deus.
O ultimo tópico da tríade – que é a
prosperidade – deve ser visto como um ato conclusivo. Ou seja, o crente busca a
cura, busca uma melhora porque quer que sua vida seja próspera. A teologia da
prosperidade é propaganda de forma intensa no universo neopentecostal. A IMPD,
por exemplo, possui cultos exclusivamente voltados para a prosperidade. São
eles: Segunda-Feira do Crescimento Financeiro e o Sábado de Clamor das Portas
Abertas.
RELIGIÃO E MODERNIDADE
Juntando esses três aspectos, podemos dizer
que eles estão intrinsecamente ligados. O crente quer a cura de Deus; para
isso, ele deve primeiro se libertar daquilo que o prende, e assim se submeter à
libertação; após ter sido liberto, Deus opera nele um milagre, seja ele a cura de
alguma doença, ou contra benesse que ele almeje. Dessa forma, Deus ajuda o
fiel, para que ele possa ter uma vida próspera, como mandam as escrituras.
Na verdade, as pessoas estão em busca do que
lhe é conveniente e eficaz. Nesses casos, as pessoas buscam soluções divinas
para os seus problemas, e a maioria dos entrevistados encontrou essa solução na
IMPD. A cura divina, ou a solução divina para os problemas, faz com que as
pessoas transitem mesmo de uma igreja para outra, até encontrarem o que de fato
almejam. De certa forma, o pentecostalismo resgata a ideia de cura divina, pois
a Igreja Católica tratou de delegar a cura apenas aos santos canonizados pelo
Vaticano. O pentecostalismo, não é necessário ser santo para “praticar”
milagres.
De acordo com Hervieu-Leger (2008), existem
paradoxo religioso nas sociedades seculares. O que seria esse paradoxo? A
modernidade, ao mesmo tempo em que seculariza a religião, deixando-a completamente
sem prestígio e sem status para controlar as coisas mundanas – como era feito
nos séculos anteriores -, cria determinadas vias de acesso para que essa mesma
religião recrie novas formas de religiosidade. Isso significa que a religião,
de certa forma, esfacela-se em tradições. E o avanço das igrejas
neopentecostais pode ser atrelado a isso.
A modernidade, de acordo com Giddens (2005),
nos passa a ideia de que o mundo não é regido mais pelo progresso ou pela
historia de grandes instituições. A sociedade pós-moderna é totalmente pluralista
e diversificada, e seu histórico é formado não pelos ditames das coisas antigas,
e sim pelo seu próprio desenvolvimento, unindo as características e
oportunidades que são oferecidas. De certa forma, houve uma ruptura com a
tradição, e, após isso, a própria modernidade recria canais de formação de
novas crenças, e é esse o cenário do avanço neopentecostal. Existem igrejas que
são determinadas a um tipo de publico, como as surgidas dentro de presídios e
as recentes igrejas voltadas para fiéis homossexuais. Nunca que em tempos
anteriores isso seria possível, dadas as circunstâncias da hegemonia Católica
Apostólica.
As práticas religiosas se misturam e permitem
que os frequentadores façam essa mistura também. Há pessoas que vão em uma
missa e depois vão para uma sessão espirita ou para algum terreiro. A este ponto
cabem algumas considerações: i) a busca pela eficiência dos bens religiosos faz
com que exista esse trânsito, e este, por sua vez, pode ser fixo ou não,
possibilitando ao fiel que continue trafegando à procura de respostas positivas
ou que ele se fixe em alguma igreja; a visão de religião das pessoas está bem
alterada também, pois é inaceitável para a Igreja Católica pregar que ele é a
única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Contudo, os fiéis não tem essa visão
e continuam buscando resultados.
De acordo com Hervieu-Leger (apud MARTELLI,
1995), esses efeitos da modernidade foram combatidos pelo Vaticano sob a
liderança carismática de João Paulo II. Foi traçada uma estratégia mais
complexa do que a enorme crítica que fazia a Igreja Católica se por à
modernidade. A crítica passa a ser em favor dos direitos do homem, e não mais
em favor do tradicionalismo. O resultado foi previsível: a estratégia encontra
limites insuperáveis e certamente vai falir. Essa foi a conclusão que Hervieu-Leger
chegou em sua análise, e esta se consumou. A estratégia católica não deu certo,
a mesma perde o espaço hegemônico que tinha para os neopentecostais. O censo de
2000 já mostrava que o número de católicos vinha diminuindo consideravelmente,
concomitante ao crescimento de neopentecostais e dos sem religião, e o censo
2010 consuma esse abismo nos números.
Ainda, segundo Pace (1999), a religião é
influenciada pelos efeitos da globalização. De acordo com o autor, a
globalização é um processo de decomposição e recomposição da identidade
individual e coletiva que fragiliza os limites simbólicos dos sistemas de
crença e pertencimento. Observando a religião a partir desse ponto de vista,
ela este em crise como fonte de imagem, estáveis e distribuídas no tempo, do mundo
em que uma autoridade religiosa reconhecida enquanto tal entrega de geração em
geração os mecanismos de reprodução do capital simbólico, que são protegidos
por uma religião graças ao trabalho incessante de seus pensadores.
Ao falar de globalização, Pace (1999) faz um
confronto entre religião e a modernização das sociedades. Essa modernização
reflete no interior da religião e faz com que ela modifique seu discurso,
amenize suas assertivas e passe a fazer uma comunicação mais simples com o
objetivo de conquistar um público maior, que desconhece a teologia e que está
mais preocupado com as questões relacionadas com o dia a dia.
Em suma, os efeitos da pós-modernidade (ou
globalização) atuam na expansão do neopentecostalismo, e em especial na IMPD,
que é uma produtora de bens religiosos diversos, uma espécie de empresa, que
tem sua clientela própria. E como é próprio de qualquer empresa, não é possível
fidelizar os seus clientes.
As novas igrejas que são criadas a todo
momento produzem o que chamamos de trânsito religioso, que é essa “andança” dos
fiéis entre mais de uma igreja ou religião, em busca de determinados bens
religiosos. Os autores pesquisados julgam como trânsito religioso o tráfego de
fiéis em todas as religiões de forma geral. No entanto, o entendimento desse
trânsito religioso não deve ser tão generalizado. O universo neopentecostal é,
de certa forma, comum a todas as igrejas que se enquadram no mesmo segmento. Se
o fiel trafega por igrejas dentro de um mesmo universo, esse trânsito se limita
a ser apenas institucional ou interdenomininacional, e não inter-religioso.
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE
No contexto dos últimos 50 anos, a intensa
urbanização e industrialização marcaram o período do desenvolvimento nacional.
Surge então uma proposta religiosa baseada no tráfego de bens simbólicos, que
trouxe para si os segmentos mais pobres da sociedade brasileira, e a partir
destas foram criadas redes de símbolos que fazem sentidos a essas camadas e que
lhes dessem dignidade. De acordo com Proença (2010), as mudanças estruturais
por quais o Brasil passou instigaram o aparecimento de determinadas práticas
religiosas que respondiam bem aos processos de modernização que a sociedade brasileira
passava. As pessoas foram atraídas pelas propostas que essas novas práticas
colocavam como propostas ao mundo de crises que viviam. O neopentecostalismo
surge com propostas de soluções mais instantâneas e medidas por elementos
sobrenaturais. Esse segmento ficou conhecido no meio pentecostal por Teologia
da Prosperidade.
Entre os principais ensinamentos desse
segmento estão a vontade de Deus que seus filhos comam do bom e do melhor, que
vistam as melhores roupas e tenham tudo o que é melhor; não se deve gastar
dinheiro com médicos e remédios, pois a
fé é suficiente para a cura de todas as doenças. O neopentecostalismo
abandona ema ética da desvalorização do mundo voltada para objetivos
extramundanos e passa a trabalhar com a ideia de aceitação que é natural ser
rico, ter uma saúde boa e ser prospero. A figura do diabo aparece novamente
aqui, pois é atribuída a ação demoníaca toda a responsabilidade pela miséria e
sofrimento.
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Texto retirado da REVISTA SOCIOLOGIA ANO IV – EDIÇÃO 43 – OUTUBRO/NOVEMBRO 2012








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