sábado, 12 de março de 2016

O SILENCIAMENTO E A COMEMORAÇÃO DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Por Leonaldo Brandão
As mulheres ainda tem muito que lutar para comemorar no dia 8 de Março, pois infelizmente ainda é vista pela sociedade como um ser inferior aos homens, pois até mesmo no dia da “comemoração” do seu dia, ela ainda precisa da voz masculina para dar-lhes parabéns. Para sociedade a mulher ainda precisa de homens para lutar por ela, ou pelo menos OS HOMENS ACHAM QUE AS MULHERES AINDA NÃO PODEM LUTAR POR SI MESMO.
Em comemoração do dia Internacional da mulher, Buriticupu sediou momentos de verdadeira invisibilização das mulheres, pois no palco em que comemoravam o dia da MULHER, elas apenas foram minimamente representadas pela primeira dama e secretária de educação deste município. Aonde estavam as mulheres que tanto lutam para cuidar de seus filhos, aonde estavam as professoras que dão suas vidas em sala de aula para educar os filhos de Buriticupu, aonde estavam as médicas, enfermeiras e outras profissionais da saúde que tratam das milhares de vidas, aonde estavam as empresarias que ajudam a mover a sofrida economia desta cidade, aonde estavam as mulheres que ocupam espaço de poder e ajudaram e ajudam a construir nossa cidade?
Todas elas foram apagadas na festa de ontem em comemoração ao dia Internacional da Mulher em Buriticupu, pois em vez de mulheres ocupando seu lugar e espaço de fato e de direito estavam homens, que muitas das vezes oprimem, humilham, maltratam e violentam. E quando falo de violência não é violência física, mas uma violência simbólica, como disse Pierre Bourdieu. Pois, no fim tarde para o início da noite de ontem as mulheres sofreram uma violência simbólica sem precedentes, pois tiraram o seu direito de falar, de se expressar, de comemorar e acima de tudo de ser mulher que tem voz e vez de ser quem realmente é. 
A mulher além de sofrer uma violência simbólica através da sua não representação no dia em que a gestão municipal resolveu fazer a comemoração, já atrasada, ainda sofreu a violência simbólica através de músicas como o funk que ridicularizam, humilham e oprimem as mulheres, além de hiper-sexualizar e  expor as crianças que fizeram coreografia de um desses funks na tarde de ontem na praça principal da cidade em frente a Prefeitura Municipal.

Agora uma pergunta: O que foi comemorado no fim da tarde e o início da noite de ontem, no evento que supostamente era pra comemorar o Dia internacional da Mulher

quarta-feira, 24 de junho de 2015

PME - EVOLUÇÃO OU RETROCESSO?




Em sessão extraordinária no dia 24 de junho de 2015, a câmara municipal de vereadores de Buriticupu, com a participação de muitos religiosos e funcionário publico e estudantes, que levaram cartazes pedido não a IDEOLOGIA DE GÊNERO, aprovou o Plano Municipal de Educação (PME – 2015-2025). O Plano traça metas e estratégia para “EVOLUIR” a educação do município, ou pelo menos essa é a intenção dos vereadores que com AUXÍLIO de alguns líderes religiosos, fizeram emenda que modificaram diversos pontos do projeto de autoria do executivo. 


Com a presença de 13 dos 15 vereadores o projeto de lei que institucionaliza o Sistema Municipal de Educação , com emenda, foi aprovado por unamidade.
Aquilo que em muitos países do mundo e aqui no Brasil vem lutando pela igualdade, pela inclusão, hoje em Buriticupu viveu um momento de massacre de direitos humanos já conquistados, depois de diversos discursos de não discriminação, a câmara, com assessoria de alguns líderes religiosos, jogaram no lixo, direitos conquistados com muita luta e sangue. Pois foi isso que fizeram ao retirar to texto do PME, parte do texto que tratava da educação para a diversidade, de gênero, educação não machista, não sexista e não homofóbica. Tudo isso é algo já conquistado pela comunidade LGBT e outros setores da sociedade. 


O texto de lei que os vereadores aprovaram foi, na fala de todos os parlamentares que usou a tribuna, para “tirar tudo o que se relacionava a diversidade, com o intuito de moralizar a sociedade”, mas que com isso não estavam discriminando ninguém. Não sabendo que o maior ato de discriminação é tirar aquilo que já foi conseguido. O presidente da Comissão de Educação, Saúde e Assistência Social, o vereador Leo Lando, disse que “diversidade é mistura de sexo”. O vereador Peixoto começou parabenizando “as facções religiosas que estavam presentes”, talvez o vereador falou isso se relembro a que alguns religiosos hora e veja fazem com alguns membros “diferentes” da sociedade.



domingo, 13 de julho de 2014

MAQUIAVEL - A GÊNESE DO PENSAMENTO POLÍTICO MODERNO

Sérgio Sanandaj Mattos
Sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (ASESP). É coautor do livro Sociólogos & Sociologia. Historia das suas entidades no Brasil e no mundo. 



Em tempos de crescente desilusão com as instituições políticas e demanda por mais transparência, ética e moralidade na política e, por conseguinte, no poder, revisitemos Maquiavel, ainda que num certo nível de generalidade, para tentar interpretar e compreender os desafios de nossa época.
É difícil não reconhecer a crescente desilusão com as instituições politicas, as inconsistências e alianças partidárias exóticas, os desvios na trajetória representativa, entre outros aspectos, vistos como uma afronta à modernidade e ao ideal liberal. A propósito, na obra o moderno príncipe: Maquiavel revisitado, seu autor, o diplomata e cientista político Paulo Roberto de Almeida, assinala que “(...) A demagogia, já sabemos, é o mais recorrente meio utilizado por aqueles que, carente de outras virtudes administrativas e pessoais, desejam ascender ao principado”. De certo modo, esse cenário nos é peculiar.
Quase cinco séculos depois de redigido, O príncipe (1513), livro escrito pelo filosofo italiano Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli), continua a instigar a reflexão crítica sobre “a política como forma de poder e o poder como resultante da atuação política”. Segundo um dos interpretes de Maquiavel, Claude Lefort, “a imprescindível obra literária de Niccolò di Bernardo Machiavelli, ou simplesmente Nicolau Maquiavel, o pensador de Florença, não de dirige apenas aos homens de seu tempo, está mais viva do que nunca e continua a interpretar a prosperidade” (LEFORT, 1980, p. 11).
O PODER EM PAUTA
O poder é um tema clássico em ciência política desde os antigos filósofos gregos até os clássicos modernos (Maquiavel, Hobbes, Kant, Rousseau, Hegel, Marx) e chega aos contemporâneos (Foucault). Na tradição liberal ou marxista, o tema ocupou estudiosos em todos os tempos. Remontando as principais teorias desde Maquiavel, algumas das principais reflexões sobre esse instigante tema têm suscitado uma extensa discussão filosófica e científica. Na obra Potência, limites e seduções do poder, editada pela UNESP, seu autor Marcos Antonio Nogueira assinala “(...) O poder está em toda parte. Têm muitas faces, múltiplas dimensões e inúmeras falas. Exibe-se e oculta-se com igual dedicação. Ama a exposição e não vive sem o segredo. Podemos odiá-lo, cobiça-lo, combatê-lo ou apenas temê-lo. Justamente por isso, não temos o direito de ignorá-lo e de não tentarmos compreendê-lo. Se assim procedemos, acabaremos por não saber bem o que fazer com o poder que temos e com todos os pequenos e grandes poderes com que interagimos” (NOGUEIRA, M. A. Potência, limites e seduções do poder. São Paulo: Editora da Unesp).
Originalmente, a civilização grega procurou interpretar os fenômenos segundo um processo de racionalização, posição esta que a distinguiu de outras civilizações. O estudo das ideias políticas começa naturalmente, com os gregos antigos, pois foram eles, em sentido real, os primeiros a ter ideias politicas. Entre as contribuições do legado grego para as Ciências Sociais, claramente, situam-se Platão, falando da vida social e política na obra Republica e leis, e Aristóteles abordando uma filosofia de cunho social na obra A política.
Segundo Aristóteles, o homem é um ser eminentemente político e social. Está ai afirmada, de modo radical, a sociabilidade natural do homem no mundo antigo. Mas é com Maquiavel, o primeiro grande pensador moderno, que se inaugura a ciência política. Na contemporaneidade, presente em todas as esferas da vida social e política, o poder enquanto categoria analítica, cientificamente, em Sociologia, Antropologia Política e Ciência Política, nos remete a autores e obras que já se tornaram antológicas. Em comum, elas apresentam a inquietação filosófica e política.
Nos séculos XVI e XVII, Nicolau Maquiavel (Niccolò di Bernardo Machiavelli), um dos precursores renascentista do Sociologia, escreveu O príncipe. Foi o primeiro grande pensador moderno e precursor da ciência política. Seguramente no pensamento político clássico de Maquiavel, que é a gênese do pensamento político moderno, a nação de poder aparece quando ele introduz o enfoque do Estado em sua noção corporificada na figura do Príncipe, que é algo histórico, porque Maquiavel está presenciando o nascimento do Estado no século XV. Para Maquiavel (1469-1527), o Estado está surgindo como uma organização de dominação e como expressão máxima da violência. O Estado é um meio de cooptação e coerção que age sobre a sociedade e os indivíduos. A figura do Príncipe é uma forma de corporificação da paz, para que esse conflito seja amenizado, daí a necessidade de instrumentalizar-se o Príncipe. O Príncipe deve governar pela força e pela virtù, que se propõe Maquiavel é no sentido da capacidade e da qualidade para a realização da historia, enquanto força criadora, racionalidade, ação calculada capaz de fazer o homem ser sujeito de sua historia. A perspectiva de Maquiavel aponta nesse sentido que a política não comporta voluntarismo, posto que a ação do homem em Maquiavel é marcada pelo cálculo e pelas circunstâncias que permitem a ação política. Fortuna e virtú são meios e fins da ação política, nos aponta Maquiavel, sendo a virtù a capacidade, qualidade de força social, da realidade de uma razão calculada, e a fortuna, a ocasião concreta para a realização da ação política do homem dotado de virtù. É a circunstância que permite a eficácia da iniciativa política.
O fato é que a visão política de Maquiavel em tal perspectiva  é fundamental quando se discute a problemática do poder porque se percebe através dela a própria divisão de classes, a partir da noção dos poucos e dos grandes, dos amigos e inimigos. O centro maior de seu interesse é o poder formalizado na instituição do Estado, e a noção de sociedade é trabalhada por Maquiavel no sentido de uma capacidade de o homem influir ou participar do Estado.
AMAR OU TEMER
O Príncipe é colocado no plano das paixões entre o ser amado e temido. O desejo de poder é algo que se coloca muitas vezes de modo insaciável, requer certa precauções, como o temor ao desprezo e ao ódio. Por outro lado, Maquiavel, ao colocar a exploração no plano político onde os grandes têm o desejo de dominar e governar, nos remete a uma relação de antagonismo e de complementaridade. Uma boa sociedade em tal perspectiva seria aquela que procura se consolidar e onde o “poder” do Príncipe é algo que emana da própria sociedade.
Maquiavel comporta várias interpretações. Quando coloca a questão da desigualdade histórica discursa como verdadeiro ideólogo das classes emergentes, chamando os homens que sofrem o processo histórico e colocando a virtù enquanto capacidade e força social para esta realização. Maquiavel nos mostra ainda que o Príncipe não deve camuflar a luta de classes. Afinal, Maquiavel descreve um momento histórico em que a luta de classe acontecia às claras, para justificar o poder do Príncipe através das habilidades, da prudência, das alianças e do segredo, de sua política imediata não se tornar pública.

Parece ser verdadeira a reciprocidade entre o pensamento científico e as configurações sociais e políticos da vida, princípio especialmente referendado pela correspondência entre o pensamento de Maquiavel e as condições de existência social e políticas atuais. A política em Maquiavel é redefinida como correlação de forças. O homem faz história. Para fazer historia, os homens têm de se organizar. Para Maquiavel, fazer historia é fazer de modo organizado. Não posso fazer historia de modo aleatório, mas sim com os recursos de que disponho, utilizados de forma racional. “Eu não faço a historia dos meus sonhos. Eu faço a historia possível”. Maquiavel faz apologia da razão do Estado e exalta a força ou vontade de poder (virtù) como primeiro princípio e razão ultima no governo dos povos. A virtù será o meio, a disposição para atingir os fins e para o agir. A fortuna será os fins. A virtù é o meio no qual a ação poderá funcionar com êxito
No tempo de Maquiavel, as desigualdades não eram naturais e sim históricas. As desigualdades vão ver um campo político que vai exigir um esforço, através do jogo de forças. No obra, chama-nos a fazer historia num momento em que a historia tinha por interesse a unificação da Itália. Neste momento, fazer historia, fazer política seria como que uma mercadoria capaz de circular no nível econômico. Maquiavel não representa no seu discurso o interesse burguês. Assumir isto é um jogo perigoso. O discurso de Maquiavel serve aos interesses de qualquer classe social emergente. Segundo Kant, até Marx, quando clamou “Operário de todo o mundo, uni-vos”, fez o mesmo discurso de Maquiavel, num outro momento da história, servindo ao proletariado emergente e organizado. Para Maquiavel, quem quer fazer historia e participar da historia deve se organizar e ter a virtù, senão vai ficar de fora da historia. Isso, em Maquiavel, se faz presente até na obra do sociólogo americano Wright Mills, em seu livro A imaginação sociológica, quando diz que os “indivíduos não devem ser objetos da historia, mas sim agentes capazes de fazer a historia”.  Propões Maquiavel em seu discurso para o estadista um virtù que se distancia da fantasia e do sonho. Política não se faz só com boas intenções, mas também com a força da inteligência.
Na sua modernização da necessidade, Maquiavel de certo modo condena os passivos e os que agitam sem se situarem no contexto. Nós não fazemos historia quando cruzamos os braços, nem quando caminhamos sem um plano, sem um rumo. É necessário perceber o caminho, conhecer o terreno em que se pisa, para evitar erros. Pressupõe Maquiavel, no dramático do poder e na correlação de forças, que somos marcados por interesses diversos. A vontade seria o sentido eficaz. Nesse sentido, quem quer fazer política num campo minado por interesse tão divergente vai ter de operar. E os que querem a unificação terão de usar a força. É a partir daí que vem a política enquanto correlação de forças.
Maquiavel está querendo assessorar não sobre os sonhos, não sobre o passado, mas sim para tornar o cálculo o mais exato possível. Isto é uma modernização da moralidade em Maquiavel. Para ele que eu pense o que quiser subjetivamente calcule a minha ação num sentido eficaz. Como exemplo podemos citar: que o infrator tenha medo da lei. Ele nos propõe fazermos política com força, mas articulada com a razão. Força no sentido de fazer a própria historia. É um apelo à razão, visto que toda política visa implantar uma nova ordem, e os que tem mais força conseguem implantar essa ordem.
A literatura de Maquiavel nos remete a pensar na arte de governar. Possibilita a análise das bases do poder político. Redefine as virtudes. Apresenta o conceito de virtù enquanto força criadora, racionalidade, ação calculada e qualidade do homem de ação que o capacita a realizar sua historia. Finalmente, sem querer abreviar, é difícil não reconhecer eu, discutindo a natureza do homem, da sociedade e do poder, Maquiavel introduz a historia no pensamento político, revolucionando a ciência e colocando a historia como um paradigma.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, P. R. de. O moderno Príncipe: Maquiavel revisitado. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, v. 147.
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
LEBRUN, G. O que é poder? São Paulo: Brasiliense-Abril Cultural, 1984 (Primeiros Passos, 24).
LEFORT, C. A primeira figura da filosofia da práxis. Uma interpretação de Antonio Gramsci. In: QUIRINI, C. G.; SOUZA, M. T. S. R. de (Orgs.). O pensamento político clássico: Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau. São Paulo: T. A. Queiroz, 1980.
MACHIAVELLI, Niccolò (1469-1527). O príncipe, escritos políticos. Tradução Lívio Xavier. 2ª. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Os pensadores).
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Editora Escala, (Grandes Obras do Pensamento Universal,12).

NOGUEIRA, M. A. Potência, limites e seduções do poder. São Paulo: Editora da Unesp.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

AS TRAQUINAGENS DA MODERNIDADE NA RELIGIÃO


Aron Édson Nogueira Barbosa

Bacharel (Antropologia), licenciado em Ciências Sociais e Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade de Juiz de Fora. arongifoni@hotmail.com

Na sociedade moderna, de forma geral, nos deparamos por um crescente surgimento de novas religiões e denominações. Atrelado diretamente a isso está também o fluxo corrente de pessoas entre essas novas religiões. De acordo com as observações feitas durante o período de pesquisa, verificamos que a Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD) é uma das muitas igrejas que estão nesse caminho por onde as pessoas passam. Essa igreja surge da cissiparidade com a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), resultado de um possível conflito entre Valdomiro Santiago (fundador da IMPD) e Edir Macedo (fundador da IURD).
 

Essas igrejas possuem traços que são comuns a todas as igrejas neopentecostais, sendo mais visada pela população e mais divulgada pelas igrejas a tríade cura/exorcismo/prosperidade. No caso da IMPD, existe uma ênfase na cura divina. Programas de TV e de rádio, jornal e livros enfatizam os testemunhos dos fiéis que foram curados após receberem a oração de Valdomiro Santiago e de seus pastores.
O exorcismo te uma importância fundamental no neopentecostalismo. Ele é o responsável pela libertação das pessoas daquilo que lhes causa mal, e também é a chave para que as portas da prosperidade sejam abertas. Ou seja, se as pessoas têm doenças, estão desempregadas, desmotivadas, têm dependência química, é porque, possivelmente, estão possuídas pelo demônio. Todos os males biológicos, psicológicos, sociais, entre outros, são causados pelas forças do mal, por aquele que adoram o demônio e não têm uma vida regrada nos ensinamentos de Deus e da Igreja. Essa ideia vem acompanhando a evolução do cristianismo ao longo dos anos. O demônio existe, é causador do mal, qualquer pessoa está sujeita às suas ações, e se a pessoa não consegue nada próspero na sua vida, é por causa dele.
LIBERTAÇÃO DO MAL
Na IMPD, o exorcismo é tratado de forma diferente, e é chamado de “libertação”, assim como na Renovação Carismática Católica. A Libertação pode ser individual ou coletiva. A forma individual se dá por meio de orações entre o pastor e o fiel. O pastor profere máximas, pedindo a Deus que afaste todos os males da vida daquele fiel. Entre eles maldição e macumbaria. A libertação coletiva acontece nos cultos dedicados à cura divina, e o pastor ou bispo ora por todos que estão ali. O dirigente do culto chama à frente as pessoas que desejam algum milagre, faz um momento de oração pedindo a Deus que intervenha na vida daquelas pessoas, e logo depois inicia o ritual de libertação.

De acordo com Almeida (1982), as religiões neopentecostais, de forma geral tendem a demonizar elementos das religiões afro-brasileira¹ e espíritas. Durante as décadas de 1970 e 1980, as denominações pentecostais ganhara maior visibilidade no campo religioso brasileiro, e como estas tinham grande ênfase na batalha espiritual contra as outras denominações religiosas, as afro-brasileiras e espiritas se tornaram os inimigos número 1 das igrejas neopentecostais. A libertação (ou exorcismo) e peça central da dinâmica dos cultos, uma vez que os males da vida encontram sua origem em Satanás e seus demônios, que estão travestidos pelos exus e pelos espíritos. O desemprego, a miséria, a crise familiar são, quase sempre, de origem maligna. O exorcismo, sob intervenção do pastor, expele as forças satânicas do corpo do crente restituindo a saúde mental e corporal. A IMPD não tem um discurso claro que atribua exus e entidades à ação demoníaca. Contudo, fala-se em trabalhos de macumbaria no momento das orações individuais e coletivas.
As igrejas neopentecostais dão uma identidade ao diabo, retirando-o da subjetividade do universo pentecostal e colocando-o em um plano objetivo. Assim, o diabo se faz presente não só na pessoa, como também no ambiente, e todos podem vê-lo, pois o possuído deixa de agir por conta própria e passa a ser controlada pelo diabo. De certa forma, podemos dizer que o diabo é peça-chave para a existência do neopentecostalismo. Uma vez que a sua proposta é o combate sistêmico a Satanás e seus demônios, ele próprio não existiria sem a presença dos demônios na vida das pessoas.
CURA DIVINA
O fiel que quer receber a cura divina precisa se submeter a um ritual de libertação, que é o exorcismo descrito acima. A partir dessa libertação, o fiel está pronto para que Deus opere nele um milagre. De acordo com Csordas (2008), a cura pode ser dividida em três aspectos principais: o procedimento, o processo e a conclusão.
O procedimento diz respeito aos sujeitos envolvidos no ritual da cura e os objetos ou oração ou até medicamentos que são usados. Portanto, o procedimento do ritual de cura na IMPD envolve a ação sacra dos pastores (ou demais partícipes hierarquizados da igreja), que invocam a ação divina para que os demônios que residem em cada pessoa que está ali para ser curada possam ser expulsos; para isso, utilizam de orações e dizeres espontâneos parecidos com o ritual de exorcismo iurdiano, e também utilizam-se de toque com as mãos na cabeça das pessoas, simulando um gesto que se caracteriza pela retirada de alguma coisa da cabeça dos fiéis. A partir daí, algumas pessoas alteram o seu estado de consciência, o que caracteriza que o demônio esta se manifestando nela; algumas pessoas desmaiam, outras gritam e conversam de modo agressivo com os pastores, e como outras nada acontece.

O segundo aspecto do ritual de cura é o processo. Entendemos essa característica como sendo o estado da pessoa, seja ele físico ou psicológico, durante o ritual. O que ocorre, na verdade, é um misto de emoções que vão de um simples lacrimejar de olhos até os gritos mais desesperados de dor e sofrimento. Quando o ritual de libertação acaba, podemos perceber nas pessoas um semblante calmo, tranquilo, totalmente diferente das manifestações agitadas que acabaram de acontecer ali. Me parece, à primeira vista, uma espécie de transe coletivo, que se encerra ao comando do dirigente do culto, quando convida todos os presentes a soltarem um grito bem alto, caracterizando, de fato, que a ordem é para que o demônio saia das pessoas. Os gritos diziam: Sai... Sai... Sai.
O terceiro aspecto, que é a conclusão, é para nós o mais importante. Esse aspecto diz respeito à disposição final dos participantes em relação ao seu nível declarado de satisfação com a cura, ou seja, é o momento e, que o fiel se manifesta em relação ao seu objetivo em estar ali, vai declarar (ou não) se recebeu a cura de Deus, se alguma dor ou doença que ele sentia foi sanada a partir da intervenção divina.  Quando acaba o final do ritual de libertação, o pastor convida as pessoas que quiserem a dar o seu testemunho de fé, que nada mais é do que o discurso dos crentes que receberam o milagre. Varias pessoas se voluntariam, sendo que algumas delas receberam a cura naquela hora, e outras receberam em outros momentos, como em orações pelo rádio e televisão. Nessa hora, as pessoas se manifestam em relação à dor que estavam sentindo e que não sentem mais, àquela doença que se extinguiu sem explicações médicas, o emprego que não aparecia e que agora foi conseguido, enfim, muitas outras necessidades que os crentes buscavam através de Deus e que, quando conseguem, atribuem à ação divina.
RITUAL SAGRADO
O que nos interessa aqui não são explicações comprovadas cientificamente acerca dos milagres. O que importa para nós é a eficácia simbólica da cura, e o que ela representa para o fiel. De acordo com Lévi-Strauss (1975), “a cura consistiria, pois, em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos, e aceitáveis para o espirito das dores que o corpo se recusa a tolerar. Que a mitologia do xamã não corresponda a uma realidade objetiva, não tem importância: a doente acredita nela, e ela é membros de uma sociedade que acredita. Os espíritos protetores e os espíritos malfazejos, os monstros sobrenaturais e os animais mágicos fazem partes de um sistema coerente que fundamenta a concepção indígena do universo. A doente os aceita, ou, mais exatamente, ela não os pôs jamais em duvida. O que ela não aceita são as dores incoerentes e arbitrárias, que constituem um elemento estranho a seu sistema, mas que, pelo apelo ao mito, o xamã vai reintegrar num conjunto onde todos os elementos se apoiam mutuamente”.

Não estamos tratando aqui de um ritual indígena. Portanto, podemos transpor para o universo em estudo a estrutura do texto acima, transformando a em figura do xamã no pastor, a concepção indígena do universo em teologia neopentecostal e todos os demais traços míticos de monstros e espíritos e demônios. Dessa forma, podemos dizer que a cura depende, exclusivamente, de quem a procura. Ou seja, não adianta querer a intervenção divina se não se aceita a mesma, ou não acredita no que será feito. O ritual de cura, atrelado diretamente à libertação, faz parte do universo religioso da IMPD e reúne os fiéis numa igual perspectiva de crença, o que facilita a conclusão positiva do milagre.
Dessa forma, podemos dizer que a cura acontece a partir do emaranhado de significados que são colocados na vida do crente, e para tal ele deve acreditar no ritual, na possessão por demônios e no exorcismo deles, como forma de libertação, de limpeza do organismo para que aconteça a ação de Deus.
O ultimo tópico da tríade – que é a prosperidade – deve ser visto como um ato conclusivo. Ou seja, o crente busca a cura, busca uma melhora porque quer que sua vida seja próspera. A teologia da prosperidade é propaganda de forma intensa no universo neopentecostal. A IMPD, por exemplo, possui cultos exclusivamente voltados para a prosperidade. São eles: Segunda-Feira do Crescimento Financeiro e o Sábado de Clamor das Portas Abertas.
RELIGIÃO E MODERNIDADE
Juntando esses três aspectos, podemos dizer que eles estão intrinsecamente ligados. O crente quer a cura de Deus; para isso, ele deve primeiro se libertar daquilo que o prende, e assim se submeter à libertação; após ter sido liberto, Deus opera nele um milagre, seja ele a cura de alguma doença, ou contra benesse que ele almeje. Dessa forma, Deus ajuda o fiel, para que ele possa ter uma vida próspera, como mandam as escrituras.

Na verdade, as pessoas estão em busca do que lhe é conveniente e eficaz. Nesses casos, as pessoas buscam soluções divinas para os seus problemas, e a maioria dos entrevistados encontrou essa solução na IMPD. A cura divina, ou a solução divina para os problemas, faz com que as pessoas transitem mesmo de uma igreja para outra, até encontrarem o que de fato almejam. De certa forma, o pentecostalismo resgata a ideia de cura divina, pois a Igreja Católica tratou de delegar a cura apenas aos santos canonizados pelo Vaticano. O pentecostalismo, não é necessário ser santo para “praticar” milagres.
De acordo com Hervieu-Leger (2008), existem paradoxo religioso nas sociedades seculares. O que seria esse paradoxo? A modernidade, ao mesmo tempo em que seculariza a religião, deixando-a completamente sem prestígio e sem status para controlar as coisas mundanas – como era feito nos séculos anteriores -, cria determinadas vias de acesso para que essa mesma religião recrie novas formas de religiosidade. Isso significa que a religião, de certa forma, esfacela-se em tradições. E o avanço das igrejas neopentecostais pode ser atrelado a isso.
A modernidade, de acordo com Giddens (2005), nos passa a ideia de que o mundo não é regido mais pelo progresso ou pela historia de grandes instituições. A sociedade pós-moderna é totalmente pluralista e diversificada, e seu histórico é formado não pelos ditames das coisas antigas, e sim pelo seu próprio desenvolvimento, unindo as características e oportunidades que são oferecidas. De certa forma, houve uma ruptura com a tradição, e, após isso, a própria modernidade recria canais de formação de novas crenças, e é esse o cenário do avanço neopentecostal. Existem igrejas que são determinadas a um tipo de publico, como as surgidas dentro de presídios e as recentes igrejas voltadas para fiéis homossexuais. Nunca que em tempos anteriores isso seria possível, dadas as circunstâncias da hegemonia Católica Apostólica.

As práticas religiosas se misturam e permitem que os frequentadores façam essa mistura também. Há pessoas que vão em uma missa e depois vão para uma sessão espirita ou para algum terreiro. A este ponto cabem algumas considerações: i) a busca pela eficiência dos bens religiosos faz com que exista esse trânsito, e este, por sua vez, pode ser fixo ou não, possibilitando ao fiel que continue trafegando à procura de respostas positivas ou que ele se fixe em alguma igreja; a visão de religião das pessoas está bem alterada também, pois é inaceitável para a Igreja Católica pregar que ele é a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Contudo, os fiéis não tem essa visão e continuam buscando resultados.
De acordo com Hervieu-Leger (apud MARTELLI, 1995), esses efeitos da modernidade foram combatidos pelo Vaticano sob a liderança carismática de João Paulo II. Foi traçada uma estratégia mais complexa do que a enorme crítica que fazia a Igreja Católica se por à modernidade. A crítica passa a ser em favor dos direitos do homem, e não mais em favor do tradicionalismo. O resultado foi previsível: a estratégia encontra limites insuperáveis e certamente vai falir. Essa foi a conclusão que Hervieu-Leger chegou em sua análise, e esta se consumou. A estratégia católica não deu certo, a mesma perde o espaço hegemônico que tinha para os neopentecostais. O censo de 2000 já mostrava que o número de católicos vinha diminuindo consideravelmente, concomitante ao crescimento de neopentecostais e dos sem religião, e o censo 2010 consuma esse abismo nos números.
Ainda, segundo Pace (1999), a religião é influenciada pelos efeitos da globalização. De acordo com o autor, a globalização é um processo de decomposição e recomposição da identidade individual e coletiva que fragiliza os limites simbólicos dos sistemas de crença e pertencimento. Observando a religião a partir desse ponto de vista, ela este em crise como fonte de imagem, estáveis e distribuídas no tempo, do mundo em que uma autoridade religiosa reconhecida enquanto tal entrega de geração em geração os mecanismos de reprodução do capital simbólico, que são protegidos por uma religião graças ao trabalho incessante de seus pensadores.
Ao falar de globalização, Pace (1999) faz um confronto entre religião e a modernização das sociedades. Essa modernização reflete no interior da religião e faz com que ela modifique seu discurso, amenize suas assertivas e passe a fazer uma comunicação mais simples com o objetivo de conquistar um público maior, que desconhece a teologia e que está mais preocupado com as questões relacionadas com o dia a dia.

Em suma, os efeitos da pós-modernidade (ou globalização) atuam na expansão do neopentecostalismo, e em especial na IMPD, que é uma produtora de bens religiosos diversos, uma espécie de empresa, que tem sua clientela própria. E como é próprio de qualquer empresa, não é possível fidelizar os seus clientes.
As novas igrejas que são criadas a todo momento produzem o que chamamos de trânsito religioso, que é essa “andança” dos fiéis entre mais de uma igreja ou religião, em busca de determinados bens religiosos. Os autores pesquisados julgam como trânsito religioso o tráfego de fiéis em todas as religiões de forma geral. No entanto, o entendimento desse trânsito religioso não deve ser tão generalizado. O universo neopentecostal é, de certa forma, comum a todas as igrejas que se enquadram no mesmo segmento. Se o fiel trafega por igrejas dentro de um mesmo universo, esse trânsito se limita a ser apenas institucional ou interdenomininacional, e não inter-religioso.
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE
No contexto dos últimos 50 anos, a intensa urbanização e industrialização marcaram o período do desenvolvimento nacional. Surge então uma proposta religiosa baseada no tráfego de bens simbólicos, que trouxe para si os segmentos mais pobres da sociedade brasileira, e a partir destas foram criadas redes de símbolos que fazem sentidos a essas camadas e que lhes dessem dignidade. De acordo com Proença (2010), as mudanças estruturais por quais o Brasil passou instigaram o aparecimento de determinadas práticas religiosas que respondiam bem aos processos de modernização que a sociedade brasileira passava. As pessoas foram atraídas pelas propostas que essas novas práticas colocavam como propostas ao mundo de crises que viviam. O neopentecostalismo surge com propostas de soluções mais instantâneas e medidas por elementos sobrenaturais. Esse segmento ficou conhecido no meio pentecostal por Teologia da Prosperidade.


Entre os principais ensinamentos desse segmento estão a vontade de Deus que seus filhos comam do bom e do melhor, que vistam as melhores roupas e tenham tudo o que é melhor; não se deve gastar dinheiro com médicos e remédios, pois a  fé é suficiente para a cura de todas as doenças. O neopentecostalismo abandona ema ética da desvalorização do mundo voltada para objetivos extramundanos e passa a trabalhar com a ideia de aceitação que é natural ser rico, ter uma saúde boa e ser prospero. A figura do diabo aparece novamente aqui, pois é atribuída a ação demoníaca toda a responsabilidade pela miséria e sofrimento.
REFERÊNCIAS
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Texto retirado da REVISTA SOCIOLOGIA ANO IV – EDIÇÃO 43 – OUTUBRO/NOVEMBRO 2012