Quando
escuto notícias do tipo “Evangélicos tentam invadir terreiro em Olinda” ou “Traficante evangélico proíbe
terreiros no Morro do Dendê”, me pergunto se os lideres religiosos
estão realmente passando a mensagem escrita na bíblia ou se as pessoas se cegam
diante de intolerâncias medíocres construídas outrora. Cresci num lar
protestante e, mesmo me identificando hoje com religiões de matriz africana,
faço questão de guardar mensagens para refletir episódios diversos na vida.
Lembro que o princípio teológico regente do cristianismo
é a salvação pela fé, numa operação feita pelo Espírito Santo “… pela graça
sois salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós é dom de Deus” (Ef 2:8).
Diante disso, pergunto a alguns que se dizem cristãos: por que tomam o lugar de
Deus tentando converter os outros a suas verdades se o próprio livro sagrado
que seguem não lhes permite convencer ninguém? Não seria mais interessante
exercer amor ao invés de perseguirem outras crenças? Parece-me que alguns estão
muito ocupados com seu próprio umbigo, tão ocupados que só pensam na própria
“prosperidade”. A ironia e a cegueira são tantas que destruir um templo
umbandista e mantê-lo de portas fechadas é plausível ou ignorável, mas se torna
um absurdo a forma como alguns países tratam os cristãos. Não percebem os
fanáticos que incorrem no mesmo erro.
Os casos de intolerância religiosa registrados
no país pelo “Disque 100” – ouvidoria vinculada à Secretaria de Direitos
Humanos – subiram de 15 para 109 entre os anos de 2011 a 2012, sendo os
representantes de religiões de matriz africana os mais atingidos. O
motivo não poderia ser mais óbvio, em momentos anteriores da história, homens e
mulheres africanos foram demonizados por teorias em voga no medievo,
consequentemente suas crenças e cultura não escaparam desse olhar disforme que
se propaga até os nossos dias. Vários documentos medievais referentes à África
reforçam a ideia de que era uma terra corrompida, a terra onde “Satã se enfiou
após a queda”, e para completar, interpretaram seus habitantes como os
descendestes de Can – o filho de Noé amaldiçoado a servir eternamente seus
irmãos (OLIVA,2008). Se você, leitor, se lembrou de Marco Feliciano não foi por
acaso, é exatamente essa exegese medieval utilizada pelo indivíduo para
justificar a “maldição” da pele negra. Ao fecharmos essa conta o resultado não
é somente a moralização da cor da pele, é também a hierarquização das crenças
de acordo com suas origens.
Impossível
não dizer, por exemplo, que a destruição da imagem de Yemanjá
em João Pessoa e em outras cidades não seja consequência da
propagação dessas interpretações errôneas sobre as tradições africanas. Afinal,
por que os kardecistas não sofrem tanto com a intolerância se comparados aos os
umbandistas e candomblecistas? Por que não têm seus espaços invadidos e
destruídos? Simples, por mais que ambas partam do princípio da existência de
seres encarnados e desencarnados o kardecismo tem origem europeia, tem um
“cânone”, um “código de ética”.
Minha esperança é que nesse dia 21 de janeiro (Dia
Nacional de Combate à Intolerância Religiosa) nossa dívida uns para com os
outros não seja a destruição dos símbolos que importam a cada um em suas
crenças, mas sim “o amor que não pratica o mal contra o próximo” (Rm 13:10).
“Axé pra quem é de axé
Saravá pra quem é de saravá
Aleluia pra quem é de aleluia
Amém pra quem é de amém
Shalom
Namastê geral
Saravá pra quem é de saravá
Aleluia pra quem é de aleluia
Amém pra quem é de amém
Shalom
Namastê geral
Ai!”
Por, Guilherme Lemos – sou negro historiador. Raça, identidade e sociedade são meus interesses

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